Ricardo Cardim

Matéria sobre o empreendimento do botânico Ricardo Cardim, publicada no Projeto Draft. 

A Cardim Arquitetura Paisagística aposta em plantas nativas para criar projetos mais sustentáveis

A cidade do século 21, na visão do botânico Ricardo Cardim, 39, é aquela onde homem, natureza e modernidade convivem em harmonia. “Sou contra o pensamento ambientalista de que a gente tem que viver na miséria, sem abundância e com dor. Precisamos continuar com todos os confortos que a humanidade conquistou, mas em harmonia com a natureza”.  E a missão da sua empresa, a Cardim Arquitetura Paisagística, é ajudar a construir essa cidade mais sustentável e moderna, onde homem e natureza convivem em vez de disputar espaço.

Ricardo desenvolve projetos paisagísticos focados na sustentabilidade, que usam plantas  nativas da região onde são implantados, em um esforço para ajudar a reequilibrar o ambiente urbano. Em São Paulo, por exemplo, ele usa apenas espécies nativas da Mata Atlântica, como o Cambuci, o Araçá, o Ingá, a Embaúba e a Aroeira, que faziam parte da paisagem original da cidade. Com isso, os projetos ajudam a resgatar serviços ambientais, como a diminuição da temperatura, o aumento da umidade do ar e a retomada da diversidade da fauna, e ainda têm um custo de manutenção muito mais baixo porque as plantas crescem mais rápido, são mais adaptadas ao clima local, exigem menos podas e menos regas, o que ajuda a economizar água. “Acredito que a minha empresa tem a missão de ONG com a competitividade e a eficiência de uma empresa privada, o que, a meu ver, é o futuro. Não acredito mais em ONG. Acho que ficou uma coisa anacrônica. Só dá pra ser ONG se você é herdeiro de alguma fortuna. Se você é uma pessoa normal, precisa ganhar dinheiro”.

No mercado há um ano, a Cardim Arquitetura Paisagística atende apenas clientes de médio e grande porte, a maioria deles corporativos, mas não funciona na lógica industrial. Pelo contrário: é como se fosse um ateliê de projetos paisagísticos.  Além de Ricardo e da sua esposa, a arquiteta Alessandra Cardim, o escritório tem apenas três funcionários. “Somos um escritório pequeno por opção. Eu quero ter o controle sobre todas as etapas dos projetos”, diz. “E só aceito projetos que estejam em sintonia com o que acredito. Não faço só porque vão me pagar bem.”

Alguns de seus principais clientes são grandes construtoras que levam para os empreendimentos esse conceito de paisagismo sustentável e nativo. “Eu me orgulho de ter conseguido quebrar um paradigma que existia na sociedade de que planta nativa não dá dinheiro, mato não dá dinheiro, botânica não dá dinheiro. O meio ambiente ainda é visto como coisa de hippie, sonhador, fora da realidade, mas, hoje, a gente consegue levar Mata Atlântica e biodiversidade para as grandes construtoras e ser muito bem remunerado por isso”. Grandes empresas também são clientes de Ricardo e estão alinhadas com o sue propósito. Desde 2014, por exemplo, ele presta consultoria para a Votorantim, ajudando na criação e manutenção do viveiro de plantas que há dentro do Legado das Águas, a maior reserva privada de Mata Atlântica do País.  “Sempre acreditei que pra mudar é preciso entrar no sistema. Não adianta ficar na borda do sistema gritando, que ninguém vai me ouvir”.

A relação de Ricardo com as plantas começou na infância. Filho de advogados, ele cresceu em um apartamento em Moema, em São Paulo, e nunca foi estimulado a ter contato com plantas. Mas no livro do bebê feito pela sua mãe está escrito que seus brinquedos preferidos eram plantas, sementes, flores e conchas. Na escola particular onde estudou, havia um pedacinho de Mata Atlântica que foi suficiente pra fazer esse gosto crescer ainda mais, embora não houvesse estímulo algum da escola pra isso. “As professoras diziam que aquilo era coisa de quem vivia no mundo da lua”. Ainda assim, ele pegava sementes naquela floresta e plantava no copinho de plástico que tirava do lixo. Levava tudo para a varanda do apartamento da família. Para não ser zoado pelos amigos, quando queria pegar uma semente do chão ele fingia que ia amarrar o tênis e colocava a semente no bolso. Com 13 anos e 200 mudas no terraço do apartamento, recebeu um ultimato do pai pra resolver a situação. Conseguiu, então, um espaço no sítio de um tio, pra onde levou boa parte daquelas plantas. Ali, em dois anos, surgiu  uma pequena floresta que foi o primeiro projeto do portfólio de Ricardo.

Na hora de escolher que faculdade a fazer, ele pensou em biologia, mas quando viu o estado de degradação em que estava o prédio da faculdade de biologia da USP, ficou chocado e pensou qual seria o seu futuro dentro daquela área. “Decidi fazer odontologia porque eu não queria trabalhar com carteira assinada. O plano era ganhar dinheiro, comprar uma fazenda e ir para o interior”. Dois anos depois de formado – já com consultório, que foi o seu primeiro empreendimento  – ele resolveu que era hora de fazer o que realmente queria: lidar com o meio ambiente. Mas descobriu que os preços de fazenda eram proibitivos para a sua realidade  e que  no interior não teria abertura para as inovações que gostaria de fazer. Foi quando ele começou um longo caminho – que durou 12 anos – em busca da realização de um sonho.

Sem conhecer ninguém na área, Ricardo pegou um papel e listou 60 empresas, ONGs e pessoas com trabalhos na área ambiental. “Montei um portfólio com aquele pequeno reflorestamento do sítio do meu tio e comecei a ligar para as pessoas. Pra minha surpresa, no final do ano eu tinha feito 60 reuniões com gente que eu nunca tinha visto na vida. Eu estava tentando ver onde eu podia me inserir. Terminei esse ano (2005) com 3 possibilidades: ser aluno ouvinte no curso de Botânica  da USP; montar um viveiro com uma empresa de engenharia ambiental; ou atuar na SOS Mata Atlântica”.  Tudo isso, é bom lembrar, enquanto  continuava atendendo no consultório.

Ele optou por ser aluno ouvinte do curso de Botânica da USP, mas ficou bem desanimado quando os projetos que tentava por em prática não emplacavam. Um dos primeiros baques foi a derrocada de um projeto junto a empresa Melhoramentos para plantar uma floresta de eucaliptos. A falta de experiência como empresário pesou. “Eu tinha um sócio que falou que ia fazer várias coisas e acabou não fazendo nada. Também percebi que o projeto era muito complexo e tinha demandas que eu não teria como cumprir. Então, achei melhor pular fora. Mas foi uma frustração”.  Nessa época, ele convivia com  a ansiedade, a empolgação e o medo de tudo dar errado. “Eu vivia angustiado. Ainda assim, não desisti porque eu queria que desse certo”. Enquanto essas coisas aconteciam, ele mantinha o consultório odontológico em funcionamento, mas viu a renda cair 1/3 porque não conseguia se dedicar integralmente à odontologia enquanto corria atrás do sonho da botânica.

Quando criou, em 2007, o blog Árvores de São Paulo, Ricardo começou a mostrar todo o conhecimento que tinha sobre a vegetação nativa da cidade e ganhou uma visibilidade com a qual ele nunca havia imaginado. “Sempre estudei muito sobre isso. Vi que o conhecimento que ia colocando na internet era querido pelas pessoas. E aí a mídia começou a me chamar para falar sobre o verde na cidade de São Paulo. Foi quando as pessoas começaram a me ouvir. Concomitantemente, já estava bem sedimentado na botânica da USP, o me dava um anteparo acadêmico de conteúdo”.

Em 2008, ele aceitou o convite para montar uma empresa de telhados e paredes verdes. Investiu uma grana em dólar e montou, com um sócio, a Sky Garden, empresa que fez mais de 500 projetos de telhados e paredes verdes na época em que essa técnica ainda não era muito conhecida no Brasil.

O consultório de dentista continuava funcionando, mas era cada vez mais difícil colocar energia nele, principalmente depois que, em 2009, Ricardo entrou no mestrado em Botânica da USP. “Tive que tirar a segunda maior nota porque todo mundo desconfiava: o que esse dentista está fazendo no meio dos biólogos?”.

Foi só em 2011 que a Sky Garden começou a se pagar. Em 2012, a empresa começou a dar algum lucro e ele decidiu, finalmente, fechar o consultório. “Nessa hora, todo mundo falou que eu era louco”, diz. “Mas, pra mim, era uma questão de sobrevivência. Se eu não fizesse aquilo, ia ficar doente. Ou arriscava, ou me rendia a ter um sítio pra ir cuidar de plantas apenas nos fins de semana. E eu decidi lutar pra ser feliz. Nesse momento, pensava muito no meu pai, que teve uma história parecida. Quando era novo, ele era escultor e ganhou o Festival de Inverno de Ouro Preto de 1973. Ele tinha muito talento, mas acabou cedendo às pressões e foi trabalhar como advogado da Unilever do Brasil. Trabalhou a vida inteira e chegou ao topo dessa carreira. Mas eu pensava: se meu pai tivesse sido escultor, teria sido de mão cheia. Não posso deixar a minha vida. Ou me rendo ou vou pra guerra. Se der errado, viro caminhoneiro”.

Na Sky Garden, ele descobriu o que é um bom faturamento – a empresa chegou a faturar R$ 5 milhões – e que é preciso ter cautela para o lucro não ir para o ralo. “A gente cresceu muito rápido, sem experiência, e isso comeu o lucro da empresa. Chegamos a ter 33 funcionários. Aprendi que é melhor oferecer menos serviço com mais qualidade”.

Depois que vendeu sua parte na empresa para o ex-sócio, ele levou essa lição como lema e tem muito mais cautela nos trabalhos da Cardim Arquitetura Paisagística, empresa que ele abriu praticamente sem investir nada, já que o seu principal capital era o próprio conhecimento. Os projetos são totalmente personalizados e, até por isso, os preços variam bastante. Em média, começam em R$ 20 mil, mas há uma variação grande dependendo da complexidade, da área e até da distância. “Por uma questão de mercado, não cobro mais caro do que os escritórios de paisagismo do mesmo nível. Mas a implantação é mais barata porque planta nativa não tem o fator ‘moda’. Uma palmeira estrangeira custa R$ 800, enquanto uma palmeira nativa do mesmo porte custa R$ 90”. Um dos principais ativos da empresa, aliás, é uma lista de 60 produtores de plantas nativas que Ricardo demorou anos pra conquistar. “Hoje,consigo achar qualquer planta que eu quiser”.

Ele não revela o faturamento da empresa, mas diz que teve crescimento de 100% no último ano e tem no portfólio 60 projetos (incluindo paisagismo, consultorias e Florestas de Bolso) feitos em parceria com grandes empresas como Rede Globo (Verdejando), Gamaro, LG etc.

O principal diferencial da empresa – o paisagismo sustentável com plantas nativas – é, também, um dos grandes desafios. Afinal, é preciso vender um conceito relativamente novo pra esse mercado. Embora o Brasil seja um dos países mais ricos em natureza no mundo, 90% da vegetação usada nos projetos de paisagismo por aqui é estrangeira. Por estarem acostumadas a esse tipo de vegetação, as pessoas ainda desconhecem o potencial das plantas nativas e isso faz com que reuniões de projetos se transformem em aulas sobre plantas nativas. “Gastamos bastante energia nisso, dá trabalho, mas vale a pena”.

Em 2013, Ricardo entrou no mercado de varejo e abriu uma loja de plantas nativas. Investiu R$ 100 mil em um negócio que não deu certo (a loja fechou em 2015) e, mais uma vez, mostrou pra ele o quanto esse tipo de vegetação é desconhecida. “Em um país que tem 50 mil espécies de plantas, a gente usa as mesmas 20. A loja só vendia alguma coisa quando eu ia para o balcão. Foi aí que eu aprendi que planta nativa depende de história pra vender”.

Florestas de Bolso

A menina dos olhos de Ricardo, que tem até marca registrada, são as Florestas de Bolso. É uma técnica que ele desenvolveu para restaurar a Mata Atlântica na cidade, usando uma composição e espaçamento entre as plantas que proporciona um crescimento mais rápido, menor índice de perdas, baixo consumo de água e menos manutenção. Pode ser implantada em espaços a partir de 15 m² e custa a partir de R$ 20 mil. Até agora, já foram feitas 21 florestas, a maior parte delas em áreas públicas, como praças, parques e canteiros centrais. Algumas tiveram empresas patrocinadoras – como a multinacional TATA – outras foram feitas usando recursos próprios e de parceiros, como a do Largo da Batata, em São Paulo, onde foram plantadas 400 mudas de 90 espécies.

O papel da floresta de bolso é restaurar a biodiversidade dentro da escala urbana e fazer com que haja uma harmonia entre a paisagem ancestral – que estava aqui antes do homem destruir tudo –  e a cidade moderna. E o resultado pode ser visto muito rapidamente. “Em três anos ela vai de um metro para 8 metros”. A maior parte dos plantios é feito com voluntários, que têm a oportunidade de aprender mais sobre a Mata Atlântica. E isso, ele acredita, é parte fundamental do seu trabalho. “Quando penso no futuro da empresa, vejo que o que quero é ajudar a mudar esse estado de coisas na relação entre homem e natureza nas cidades.Minha luta, minha missão de vida é tentar fazer com que as pessoas entendam que a gente está no lugar de maior patrimônio natural do mundo e que isso pode conviver com a nossa vida cotidiana”.

 

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