Domingos Montagner (2012)

Matéria sobre o ator Domingos Montagner publicada na Revista do Tatuapé de Abril de 2012

Atleta da emoção

Nascido e criado no Tatuapé, o ator Domingos Montagner não se ilude com a fama ou o título de galã e acredita que manter o pé no chão e trabalhar muito ainda é o melhor caminho

Por Maisa Infante
A frase que dá título a essa matéria é da atriz Andréia Horta e foi dita ao ator Domingos Montagner, 49, e ao seu parceiro de teatro, Fernando Sampaio. Refere-se à quantidade de trabalhos que eles conseguem tocar ao mesmo tempo, sem perder a qualidade. Domingos, nascido e criado em volta da Praça Silvio Romero, região em que viveu até os 20 anos, viu os holofotes se virarem para ele no ano passado, depois de interpretar o cangaceiro Herculano na novela Cordel Encantado e viver o presidente Paulo Ventura, na minissérie O Brado Retumbante. Mas a história dele com a arte começou muito antes. Domingos é artista de teatro e palhaço de formação. Ao lado de Fernando, parceiro que ele conheceu no Circo Escola Picadeiro, formou a dupla La Mínima, que caiu no gosto dos paulistanos com espetáculos que levam o circo para dentro do teatro. Neste ano, comemoram 15 anos de um trabalho intenso e premiado com a apresentação do espetáculo Mistero Buffo, de Dario Fo, que estreou no fim de março e fica em cartaz até junho. Domingos é também o criador do Circo Zanni, um projeto de circo de lona, que busca revitalizar a importância das artes circenses e dos circos de pequeno e médio porte na vida cultural das cidades. É por causa de toda essa desenvoltura, seja no palco ou na frente das câmeras, que Andréia definiu o ator como um atleta da emoção. E a gente concorda.

Mesmo com os paparazzi sempre em busca de um flagra, ele mostra que não há deslumbramento que o faça sair do trilho. Para ele, olhar para o próprio sucesso não é se encher de vaidade e ver uma pessoa famosa, mas sim alguém que trabalhou muito para conquistar o que tem e continua trabalhando porque sabe que nada disso dura para sempre. “A vida de artista não tem regularidade e a gente tem que estar preparado para isso. Sempre digo que a profissão é feita de talento e vocação. E a vocação é saber superar os momentos de baixa”.

Ao conhecer um pouco mais a história desse tatuapeense, que viveu no bairro na época em que se podia atravessar a linha do trem para brincar com os amigos e viu muitas casas serem demolidas para a construção do metrô, é possível entender um pouco mais sua linha de pensamento. Antes de ser ator, Domingos foi professor de Educação Física na rede pública estadual (concursado, ele faz questão de dizer), e também em algumas escolas particulares. Quando percebeu que o teatro, e principalmente o circo, tinha um poder arrebatador sobre ele, decidiu deixar a sala de aula. “Escolhi o circo como expressão principal. É um tipo de comunicação popular que tem mais a ver com a minha ideia de expressão artística”, diz. E para conseguir “viver de arte”, Domingos começou literalmente na rua, onde, ao lado do sempre parceiro Fernando, se apresentava e passava o chapéu para ganhar algum. “Foi uma experiência muito legal. Aqui no Brasil, não existe muito essa tradição de passar o chapéu, coisa que na Europa já é mais comum. Mas acontecia uma empatia com as pessoas e acabava funcionando”. Com a formação do La Minina, os espetáculos ganharam outro formato e passaram a ser apresentados em teatro, mas sem perder a essência da linguagem do palhaço. “Ser palhaço é uma arte. Até por isso a gente sempre quis fazer uma peça do Dario Fo, que tem um profundo respeito por essa arte. Para você ser um palhaço é preciso muitos anos de prática, porque existem técnicas, seja para o vocabulário ou para a parte física, que te ajudam a desenvolver a comicidade. Não é algo que se aprende em um curso de dois meses”.

Depois de tanta experiência e reconhecimento no teatro e no circo, Domingos resolveu se arriscar na televisão.  Ele conta que não foi algo programado, mas que ao se deparar com a oportunidade, soube aproveitá-la. “A minha carreira foi formada nessa ideologia de ser autossuficiente, participar de todo o processo do espetáculo. Mas nunca tive preconceito com a TV e nem fiquei desatento ao que aparecia. E a televisão surgiu de forma muito agradável e tratou a minha carreira de forma respeitosa”.

Quando o Coronel Herculano, o cangaceiro de Cordel Encantado, começou a fazer sucesso, inclusive entre as mulheres, Domingos teve que aprender a lidar com outro tipo de fama e de assédio. Dessa vez não era um teatro ou uma lona de circo lotados, mas sim milhões de pessoas vendo seu trabalho, muitas fotos na internet, reportagens o questionando sobre o posto de galã, além de fotos tiradas em momento de lazer na praia e publicadas em revista de celebridade. Perguntamos se ele se assustou com as reações. “Foi um pouco surpreendente me ver nesse meio. Mas eu sempre digo que a gente não pode se apegar ao reflexo da imagem, mas sim ao resultado do trabalho”.

Discreto e comedido, Domingos não gosta de falar muito sobre os comentários de que é um dos novos galãs da Rede Globo. O que ele gosta mesmo é de trabalhar. Envolvido com os ensaios do espetáculo Mistero Buffo desde janeiro, já está na maratona de apresentações, além de estar escalado para a próxima novela de Glória Perez, prevista para estrear em outubro, e ainda quer levantar a lona do Circo Zanni no segundo semestre. “Nesse meio a gente cria essa disponibilidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo. Quem trabalha com teatro de repertório então, já está bem acostumado”. E não se assuste se você cruzar com ele pelas ruas do bairro. Afinal, um bom filho a casa torna, principalmente quando amigos queridos continuam na região.

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