Marcelo Jeneci (2012)

Matéria publicada na Revista do Tatuapé em Outubro/2012

O Alvo é o coração

Marcelo Jeneci cresceu ouvindo as músicas que chegavam à periferia e usa essa bagagem para fazer canções que querem apenas falar ao coração das pessoas

Por Maisa Infante

Ao explicar por que não costuma ouvir muita música, Marcelo Jeneci resume um pouco do que a música faz pelas pessoas. “Acho que inspira e distrai, às vezes alivia e às vezes tenciona”. Aos 30 anos, esse paulistano de alma pernambucana, que viveu até os 20 anos em Guaianases, extremo Leste da cidade, gosta de passar longos dias com o barulho da rua, do dia a dia da cidade. Com cinco músicas em trilhas sonoras de novela da Globo, ganhador de prêmios concedidos por veículos especializados em música, elogiado por artistas como Erasmo Carlos, Arnaldo Antunes e Dominguinhos; merecedor de capa de revistas e cadernos culturais dos principais jornais do País, Jeneci faz questão de olhar para trás para entender o que acontece no presente e preparar o futuro.

O garoto que cresceu ouvindo o que tocava no rádio da periferia e os grandes sucessos das novelas, além de Roberto, Erasmo e Alceu Valença, que não saíam da vitrola do pai, gosta de voltar ao lugar onde viveu por 20 anos e onde seus pais ainda vivem. “Às vezes vou de metro e lotação, faço o caminho que eu sempre fazia para me manter não muito distante do lugar de onde vim. Acho isso fundamental, porque conforme a gente começa a batalhar pelos próprios sonhos, é natural se distanciar muito do lugar de onde a gente vem, que é, na verdade, a lembrança daquele lugar e daquela época. Então, como acabamos não cabendo mais nesse lugar porque ele não existe mais, acho importante fazer o possível para se manter perto da família, dos primeiros passos para, inclusive, ter consciência dos passos que estão sendo dados hoje em dia”.

E para Marcelo, a família e a vida na periferia tem uma grande importância na forma de fazer e pensar a música. Seu pai, um pernambucano que está há 40 anos em São Paulo, fez de Guaianases rota obrigatória para os sanfoneiros do País. Seu Manoel Jeneci criou um sistema de captação de som da sanfona que se tornou referência entre os acordeonistas. Assim, a pequena casa da família sempre recebeu visitas ilustres, como Dominguinhos, que, de certa forma, povoaram o imaginário de Marcelo, além de contribuírem para sua formação e aprendizagem musical. Enquanto os instrumentos ficavam lá, esperando os donos irem buscá-los, o menino tocava, tocava, tocava. Foi assim que, um dia, ele conseguiu uma vaga na banda do Chico César. A partir daí, a vida mudou. “Quando eu comecei a querer viver de música, gostava de tocar assim como gostava de jogar bola. E quando a música começou a se tornar profissão foi um pouco parecido com o que acontece com jogador de futebol, que acaba convidado para jogar em time grande sem entender direito o que é lazer e o que é trabalho. Nesse momento, eu achava que o meu máximo seria trabalhar em praça de alimentação de shopping, tocando piano. Inclusive, quando inaugurou o Shopping Metrô Tatuapé eu fui lá para tentar garantir esse trabalho. Fiz o mesmo no Shopping Aricanduva. Esse era o meu sonho. E isso acabou não acontecendo. Aconteceram coisas diferentes através da música. Acho que tudo que queremos a gente consegue, independente do alimento que nos é dado”.

Hoje, Marcelo se inspira em toda essa história para compor canções que falem de maneira simples sobre os sentimentos que todo mundo tem. Exatamente o que diziam as músicas que chegavam a Guaianases. “O que chegava através da rádio eram aqueles sucessos dos primeiros grupos de pagode. Da novela vinham muitas canções românticas. Dentro de casa muita coisa do Erasmo e Roberto, Alceu Valença, entre outras que, de algum modo, buscam o coração das pessoas. Exatamente isso que eu busco com a minha música. É o mesmo alvo”.

Hoje, já pensando no seu segundo disco, que deve ser lançado no começo de 2013, ele garante que carrega consigo absolutamente tudo que viveu naquela casa simples. “Acho que o fato de viver de música tem muito a ver com a vida na periferia e com os meus pais. A música que eu faço tem muito a ver com o romance do meu pai com a minha mãe, a maneira como eles nos criaram, muito carinhosa, amorosa. Meu pai carregou dentro de si uma vontade de se aproximar do mundo da música e, naturalmente, conseguiu fazer com que isso acontecesse com os filhos. Lá em casa, a atenção que é dada para a música também é dada para o cinema, sempre com esse viés popular, de entretenimento. Acho que a gente sempre é a extensão de alguém que vem antes. Às vezes a gente se opõe a esse movimento, às vezes dá continuidade. De alguma maneira, acho que meu pai sente o mesmo que eu. Através de mim ele vive um pouco desse desejo dele”.

Imagine, então, o orgulho de seu Manoel ao ouvir as canções do filho em novelas! Já são cinco canções em trilhas sonoras de folhetins que, para Marcelo, é uma forma de fazer com que o seu trabalho chegue bem longe, embalando romances, sendo pano de fundo da história das pessoas, enfim, fazendo parte do dia a dia. “É atrás disso que estou. Não atrás do sucesso, mas atrás de uma expressão que fale a linguagem do povo brasileiro e atravesse o País de canto a canto”. E um desses cantos ele espera que seja seu local de origem, Guaianases, para que possa inspirar outros moradores a sonhar e ver o sonho virar realidade. “Eu, que estudei em escola pública e me criei no fundão da Zona Leste, sei o quanto é difícil fazer um trabalho que não seja tão irrelevante, que te dê uma pista para decolar e, dependendo do seu esforço, te arremesse para um lugar melhor. Isso é difícil de acontecer com quem não é muito bem alimentado, e não só de comida”, diz Jeneci, que tem o desejo de fazer um show no seu bairro de origem. “Não gosto de usar isso de maneira panfletária. Mas guardo dentro de mim o desejo de fazer um show lá no momento em que várias músicas sejam conhecidas pelas pessoas de lá. E acho que isso vai acontecer um dia”.

Curiosidades
+ A cantora Laura Lavieri participa de quase todas as faixas do disco Feito pra Acabar. Os dois se conheceram por intermédio do pai dela e a parceria nasceu naturalmente.

+ O disco Feito pra acabar foi gravado em fita, de forma analógica, com toda a banda tocando junta no estúdio.

+ A música Longe, que fez parte da trilha sonora da novella Paraíso (TV Globo) foi gravada por três vozes muito diferentes: Arnaldo Antunes, Leonardo e Laura Lavieri.

+ A música Quarto de Dormir, parceria com Arnaldo Antunes, está na trilha sonora da novela Lado a Lado, exibida pela Globo às 18h.

+ A música Amado, de Marcelo Jeneci e Vanessa da Mata, foi sucesso na voz de Vanessa como tema dos personagens de Cauã Reymond e Mariana Ximenes na novela A Favorita.

+ Marcelo Jeneci gostaria que a canção Feito pra acabar fizesse parte de algum filme dirigido por Fernando Meirelles ou Walter Salles.

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