Inspire, expire, não pire!

Matéria publicada na Revista do Tatuapé

Não é porque estamos no fim do ano que precisamos pirar e fazer tudo ao mesmo tempo. Está quase surtando? Pare, respire e comece novamente!

Por Maisa Infante

Chega o fim do ano e você tem a sensação de que o tempo não será suficiente para fazer tudo? Talvez seja a hora de parar e respirar. Ah, você não pode perder tempo com essas coisas, precisa correr pra organizar a ceia, participar da celebração da empresa, da festa na escola dos filhos, organizar férias baratas por causa da crise? Pare e respire. Isso mesmo. Parar e respirar não é perda de tempo. Pelo contrário, pode significar ganho de tempo e qualidade de vida. Por quê? Porque esse simples ato pode te trazer a calma necessária para fazer todas essas coisas sem se descabelar ou, então, te ajudar a perceber que nem tudo é tão urgente quanto parece e liberar espaço na agenda para aquele momento de pernas para o ar.

Nossa respiração é nossa sobrevivência. Podemos ficar dias sem comer, mas sobrevivemos poucos minutos sem respirar. O oxigênio que inspiramos é alimento para as células e faz nossos órgãos funcionarem corretamente. Além disso, quando expiramos liberamos o CO2 gerado pelo nosso metabolismo, capaz de nos intoxicar e matar se ficar no organismo. Então, respirar é vida, literalmente.

Mas a respiração também tem ação sobre o Sistema Nervoso, cujo centro está no nosso cérebro. “O oxigênio é para o Sistema Nervoso o que a gasolina é para o carro. Embora represente somente 2% do peso corporal, o cérebro utiliza em torno de 20% do oxigênio do organismo. Ao respirar fundo várias vezes, você aumenta a saturação de oxigênio no sangue e, consequentemente, eleva a capacidade do cérebro”, ensina Rick Hanson no livro O Cérebro de Buda. Já deu pra perceber que a respiração tem uma participação maior na nossa vida do que a sobrevivência.

Quando mantemos uma respiração calma e profunda, estimulamos o Sistema Nervoso Parassimpático, que acalma e tranquiliza. Ele é o oposto do Sistema Nervoso Simpático, que prepara o nosso corpo para reagir em momentos de emergência e é frequentemente acionado quando ficamos ansiosos ou estressados. “Toda vez que o Sistema Nervoso Autônomo for acalmado por meio da estimulação do sistema nervoso parassimpático, levará o corpo, o cérebro e a mente cada vez mais em direção ao bem-estar”, diz Rick. E respirar é uma das melhores formas de fazer isso. Por isso, quando alguém nos diz para “parar e respirar” é bom seguir em frente. Esse simples ato tem o poder de nos fazer recuperar energias e não agir por impulso. “As coisas não são do nosso controle o tempo todo, mas a nossa respiração é. Se controlamos o nosso respirar, conseguimos controlar todo o resto”, explica a professora de Kundalini Yoga Nathaly Lopes Mattar.

Essa frase tem um sentido muito grande se pensarmos que não há como fugir dos problemas, dificuldades, tristezas e ansiedades. Mas é perfeitamente possível controlar como vamos reagir a todas essas situações. Isso não significa não ficar irritado, triste ou não sofrer. Mas sim tomar atitudes conscientes, apesar de tudo.

Respiração curta e longa

Respirar é tão natural que nem percebemos. E ainda bem. Se tivéssemos que pensar todas as vezes em que respiramos, não faríamos mais nada. Curta ou longa, rápida ou lenta, a respiração cumpre a sua função de sobrevivência. Porém, conforme tomamos consciência desse ato podemos deixá-la com mais qualidade. Os exercícios de respiração não nos ajudam apenas a acalmar os ânimos, mas também a modificar alguns padrões mentais que adquirimos ao longo do tempo e nem percebemos. A respiração curta é um deles. Ela acontece quando usamos a região torácica na hora de respirar (se você levanta os ombros quando respira, está fazendo exatamente isso) e, consequentemente, não enchemos totalmente os pulmões de ar. Isso acontece porque o diafragma – um músculo que fica entre o tórax e o abdome e se contrai durante a inspiração, abrindo mais espaço para o ar entrar, e se expande na expiração, expulsando o CO2 – não está trabalhando em sua capacidade total. Para saber se você está respirando com o diafragma, coloque a mão no abdome. Ele deve inchar na inspiração e murchar na expiração. Esse movimento abdominal significa que a sua respiração está bem profunda. E isso é ótimo para acalmar e oxigenar completamente o organismo.

Quando respiramos de forma curta temos uma menor oxigenação do corpo. O resultado é cansaço, dores e mais ansiedade. “A respiração curta só vai oxigenar os órgãos nobres, vitais. O restante não consegue receber oxigênio e podem aparecer problemas como dores e câimbras”, explica Nathaly.

Talvez você esteja se perguntando: ok, a respiração diafragmática é importante, mas como faço isso no dia a dia, sem parar tudo para simplesmente respirar? É preciso mudar o padrão mental que se estabeleceu ao longo da vida. Pensem. Nascemos respirando com o diafragma (preste atenção em como a barriga do recém-nascido se mexe), mas, com o tempo, vamos adquirindo novos hábitos e há uma tendência entre a maioria das pessoas em respirar de forma mais curta. Uma forma de mudar isso é fazer exercícios de respiração constantemente. Ao longo do tempo, eles ajudam a mudar o padrão mental e a nossa respiração diária, inconsciente, tende a ficar um pouco mais profunda. Ainda assim, nos momentos de ansiedade, vale a pena parar e respirar bem profundamente e com calma, usando todo o potencial do seu diafragma, para ativar o Sistema Nervoso Parassimpático e ir com calma seja lá para onde for.

Aqui e agora

Colocar a atenção na respiração também tem a função de nos fazer parar e pensar no presente. “Observar a respiração é uma das formas mais evidentes de se manter atento ao que está acontecendo no momento. É o aqui e agora”, diz o mestre em Yoga Marcos Rojo Rodrigues. Isso é bom porque traz de volta a atenção que perdemos diante de tantos estímulos e distrações. E pode ser um primeiro passo para a meditação, um estado mental de profunda calma e tranquilidade. “A respiração é a melhor ferramenta que você tem para entrar em estado meditativo. Esse estado acontece porque a tua respiração está fluida”, diz Nathaly.

Mas não adianta querer chegar ao estado meditativo agora, assim que acabar de ler este texto. O segredo é começar devagar, com poucos minutos de uma respiração longa e profunda todos os dias. “É importante começar fazendo isso durante poucos minutos. Se tentar começar fazendo tudo de uma vez não dá certo. A pessoa não consegue e acaba se autopunindo”, ensina Nathaly. Que tal 3 minutos? Isso não vai fazer você perder tempo algum do seu dia. Pare esse tempo, inspire e expire usando o seu diafragma. Pode colocar a mão sobre o abdome para perceber esse movimento. Faça diariamente e não subestime os resultados.

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