Agricultura Urbana

Matéria publicada na Revista do Tatuapé n° 123 – Novembro/2016

Agricultura na cidade
Hortas no espaço urbano já são realidade na Zona Leste e podem trazer inúmeros benefícios para a cidade e para as pessoas

Por Maisa Infante

Horta em São Mateus. Foto: Rodrigo de Paula

A paisagem de São Paulo é sempre associada ao skyline dos prédios. Mas, com 11 milhões de habitantes, nível de poluição alto, bairros que se distanciam uns dos outros por mais de 30 quilômetros, a cidade cinza está ansiando por mais verde. Seguindo uma tendência mundial, São Paulo assiste a intensificação de um movimento por mais áreas verdes, por espaços de convivência para as pessoas, por um dia a dia mais saudável. E a Zona Leste não está de fora desse movimento. Hortas comunitárias e agricultura urbana já fazem parte da paisagem e do cotidiano dessa árida região da cidade. São formas de plantar uma comida saudável, de estimular a convivência entre as pessoas e requalificar o espaço urbano, além de, em muitos casos, ser uma fonte de renda e fomentar o empreendedorismo.

Embora a agricultura não pareça ser a vocação do município, há quem acredite que é possível inverter essa lógica e deixar a cidade mais verde e sustentável, produzindo localmente uma parte do alimento que é consumido pela população. São pessoas como André Biazoti, que integra a articulação paulista de Agroecologia e faz parte do coletivo da Horta das Flores; Pedro Almeida, Rafael Tenório, seu Genival e Terezinha Santos, agricultores urbanos que cultivam alimento em São Mateus; Andréia Perez Lopes, da Associação de Agricultores da Zona Leste; e Hans Dieter Temp, fundador e diretor executivo da ONG Cidades sem Fome. Eles acreditam que é possível transformar não só a vida das pessoas que cultivam, como a própria cidade. Certamente, não é uma tarefa fácil e perpassa uma série de questões, principalmente as políticas públicas (que precisam ser feitas para incentivar novas iniciativas) e o nosso estilo de vida, baseado no alto consumo e no hábito de ter sempre na prateleira do supermercado aquilo que queremos, mesmo que essa não seja a época daquele produto. “A gente ainda não tem um projeto de cidade que contemple a agricultura urbana e outros tipos de uso de território a não ser para moradia. Essa é uma questão muito séria sobre a qual precisamos pensar enquanto sociedade, porque a previsão é de que em 2050, 80% da população mundial esteja morando no meio urbano”, diz Pedro. “Acho que o Planeta Terra tem capacidade de suporte para as pessoas que estão vindo. O problema são os valores e o estilo de vida baseado no consumo de combustível fóssil, no alto consumo de carne – que demanda muita área para ser produzida -, e que se esqueceu do que é a sazonalidade”, completa.

Há um ano, ele e Rafael plantam em uma área da Sabesp, em São Mateus. Essa é a profissão dos dois amigos, agricultores, que têm o apoio da Associação de Agricultores da Zona Leste, entidade que nasceu em 2009 para ajudar os produtores daquela região. Hoje, a Associação trabalha com 10 áreas – em São Miguel, Guaianases, Cidade Tiradentes e São Mateus -, oferecendo apoio legal e técnico, além de organizar a feira de produtos orgânicos que acontece aos sábados no Parque do Carmo, onde boa parte da produção dessas hortas é comercializada. As outras formas de comercialização são venda direta, entregas para o Instituto Chão, na Vila Madalena, e a parceria com alguns restaurantes. Essas hortas ocupam as chamadas áreas de servidão da Sabesp e das concessionárias de energia elétrica. São terrenos por onde passam dutos e onde há torres de transmissão, cedidos por comodato para ser usado pelos produtores.

Pedro, com 31 anos, e Tenório, com 29, são agricultores jovens, movidos pela vontade de trabalhar com a terra e de ajudar a construir uma cidade melhor. Eles não negam que há um pouco de ativismo no trabalho que fazem, mas que também é um negócio, uma forma de ganhar dinheiro e sobreviver. Por outro lado, há produtores mais tradicionais, como seu Genival, 67, e Dona Sebastiana. Depois de aposentados, descobriram que a agricultura urbana pode ser um complemento da renda. Há 8 anos, o casal mantém uma horta em São Mateus, onde cultiva diversos tipos de hortaliças e outros vegetais. “Isso daqui é muito trabalho. Venho todos os dias pra cá. Mas a terra quando é bem cuidada, traz o retorno”, diz.

Terezinha Santos Matos cultiva há 6 anos em uma horta de 4 mil m² em São Mateus. Couve, cenoura, beterraba, coentro, alface, manjericão e repolho são alguns dos produtos que ela planta em um local tão silencioso que nem parece estar no meio da cidade. Um de seus pontos de comercialização é a feira de Orgânicos do Ceret, que acontece às terças-feiras, e também a da Mooca, às sextas. Ela acredita que é possível aproximar cada vez mais o consumidor dos produtores, como acontece na feira, onde pode conversar com quem compra. A venda local é, ainda, um dos grandes objetivos da Associação, que espera conseguir um espaço em algum mercado da região leste para que a produção possa ser escoada próximo de onde é produzida. “Queremos investir um pouco mais nessa questão local porque é importante que o nosso produto circule por aqui também”, diz Andréia.

Além dos benefícios para a vida dos agricultores – que ganham em dignidade e renda – e para os consumidores – que podem levar para a casa hortaliças limpas, produzidas sem o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos -, a agricultura urbana traz benefícios para a cidade. O local onde seu Genival está era um ponto de usuários de drogas. Com a horta, a paisagem foi transformada. No caso de Pedro e Tenório, eles ocuparam uma área que estava cheia de entulho e, em um ano, retiraram mais de 200 sacos de lixo. Com o plantio, o local deixa de ter essas características e passa a ficar muito mais agradável.
Para Hans Dieter Temp, da ONG Cidades sem Fome, que oferece apoio a 25 hortas na Zona Leste e mais 38 hortas escolares, a agricultura urbana é uma tendência mundial que só traz benefícios. “A venda local é muito importante porque você elimina o intermediário. Nesse momento econômico que vivemos, em que o emprego formal está difícil, é uma alternativa de trabalho e renda para quem está fora do mercado. O que a gente precisa é de mais políticas públicas que abracem essa ideia”, diz. “Eu estou há 10 anos nisso e tenho certeza de que há potencial para se produzir mais na cidade. Existem alguns tabus quando se fala em agricultura urbana que precisam ser quebrados. Um é que São Paulo não tem áreas disponíveis. Tem muitas dessas áreas de concessionárias de energia, por exemplo. São companhias que atravessam o perímetro urbano. Isso sem falar em prefeitura e subprefeitura. O que precisa é de organização para conseguir essas áreas. Outro tabu é de que é preciso de muita água para o cultivo. Não é. Com o manejo correto você consegue plantar sem precisar de muitas regas”.

Horta das Flores

Horta das Flores

Na Mooca, a Horta das Flores mobiliza um coletivo de pessoas interessadas em plantar, colher e aprender. A horta fica na praça Alfredo di Cunto, às margens da Radial Leste na altura do Viaduto Bresser. Tem um pouco mais de um ano que esse grupo se dedica à horta do local. Pedro Almeida, que mora na Mooca, resolveu procurar o CADES (Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável) para propor uma mobilização de moradores e fazer uma horta comunitária. “O subprefeito estava lá e disse pra ir em frente, conversar com o senhor que cuidava do espaço. Foi tudo bem informal e começamos a utilizar o espaço, limpar o entulho, fazer canteiro, compostagem, produzir muda. Depois de um ano, fizemos uma parceria com o projeto Praça dos Povos, que ajuda na revitalização de praças, e conseguimos recurso para comprar ferramentas, sementes, fazer eventos”.

Mas a praça Alfredo di Cunto já tem uma vocação para plantio. Em 2002 foi desenvolvido o primeiro projeto de horta para o local, por meio da subprefeitura, pelo qual mães de crianças carentes faziam o cultivo. Depois, o local teve uma escola-estufa e um viveiro de mudas. Em 2011, a prefeitura disse que venderia o terreno para a construção de uma creche. Houve uma mobilização de moradores do bairro para evitar que isso acontecesse. A praça, que é cercada por grades, teve sua função de praça retomada, mas as polêmicas não acabaram.

No dia 30 de setembro deste ano, a praça foi completamente fechada pela prefeitura. O grupo que cuida do espaço havia marcado uma atividade educativa para poucos dias depois e precisou cancelar. “Íamos fazer uma atividade de plantio e mandamos um e-mail notificando a subprefeitura sobre essa atividade. Foi aí que eles nos comunicaram que a praça estava completamente fechada e que não poderíamos fazer nada lá até o final do ano”, explica André Biazoti, um dos articuladores do coletivo.

Mas agricultores urbanos são resistentes, uniram forças e foram buscar um diálogo com a administração municipal. Depois de algumas semanas, conseguiram uma autorização provisória para que alguns integrantes do coletivo possam entrar no local e fazer, ao menos, a manutenção do espaço onde há ervas medicinais, couve, brócolis, beterraba, rabanete, inhame, rúcula, almeirão, mostarda, morango etc. Apenas pessoas autorizadas podem entrar porque a praça, infelizmente, continua fechada para o público. A esperança é que após a reintegração de posse do Viaduto Bresser, marcada para o dia 13/11, a praça seja novamente aberta à população. Apesar de lamentar o fechamento da Horta das Flores, André diz que ter esse canal de diálogo com a subprefeitura é importante, até porque esse trabalho de horta comunitária pressupõe justamente essa união entre cidadãos e poder público. “Uma horta comunitária tem diversas funções. Uma delas é aproximar as pessoas do sistema alimentar. Mas tem também a questão da cidadania, de fazer os cidadãos cuidarem da cidade onde moram e se sentirem responsáveis pelo embelezamento e pela gestão do seu espaço. Tem uma questão cívica, de incentivar que as pessoas cuidem do bem público de uma forma mais ativa do que apenas votar e deixar a prefeitura fazer uma gestão que, muitas vezes, não corresponde aos anseios da comunidade”, avalia.

Horta no Parque
No Tatuapé – bairro que teve no passado diversas chácaras ocupando seu espaço e era, inclusive, fornecedor de hortaliças, frutas e legumes para o mercado municipal -, há uma horta e uma estufa no Ceret, mantidas pelos funcionários do parque. É um local agradável, onde há verduras como alface e rúcula, beterraba, pepino, chuchu, figo, uva, cenoura, salsinha, espinafre, catalônia e até algumas espécies de PANC (Plantas Alimentícias não Convencionais), como o peixinho. Essa horta começou em 2010 e ocupa um espaço com cerca de 1.500 m². A principal função dela é o trabalho educativo com crianças e jovens. “As escolas podem agendar visitas para realizar atividades educativas com os estudantes”, diz o agrônomo Luciano Bucceroni, responsável pelo espaço. Segundo ele, funcionários do parque cuidam de forma voluntária da horta, nos horários em que não está trabalhando. A produção de verduras, frutas e legumes é dividida entre os funcionários do Ceret.

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